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Trabalho e educação com os movimentos sociais: Desafios para a práxis da educação popular
Autores corporativos:
Consejo de Educación Popular de América Latina y El Caribe (responsable)

Autores personales:
Rodrigues, Nadia (Autor/a)

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 Índice:
     A guisa de introdução.
     1. Resgatando conceitos fundamentais.
          1.1. Re-visitando algumas concepções clássicas de classe social ressaltamse as teses fundamentais de Max Weber e Carl Marx.
               A tese gramsciana.
          1.2. Conceito de movimentos sociais.
     2. Desafios para a práxis da educação popular.
          Trabalho decente.
          Trabalho e qualificação profissional.
          Trabalho e elevação de escolaridade.
     3. Considerações finais.
     Referências.
A guisa de introdução.
A crise contemporânea do mundo globalizado tem sinalizado alterações nas teorias sobre a sociedade, ressaltando as ações coletivas organizadas em torno de questões de identidade, raça, gênero, etnia, nacionalidade, dentre outras, e, destacando-se os novos movimentos sociais.

Neste cenário, observa-se que o foco sobre o conflito social vem mudando no mundo contemporâneo passando da esfera da estruturação e reestruturação produtiva para a esfera da cultura. As questões de identidade cultural, interculturalidade, multiculturalidade vão ganhando relevância criandose movimentos em torno das mesmas.

Evidentemente, reconhece-se a importância dos conflitos culturais e dos problemas de comunicação entre sistemas culturais no interior de cada sociedade e suas regiões bem como entre as regiões no mundo. Mas, tornam-se necessárias não só atribuir as determinações econômicas correspondentes aos mesmos assim como tratar sobre a temática do trabalho e os movimentos sociais, através dos diferentes processos educativos. Assim sendo, é preciso levar em conta os referentes “ culturalistas”, porém, é fundamental analisar as determinações classistas e macro-sociais, dentro de um cenário eivado de lutas, conflitos e contradições cuja origem está nos problemas da sociedade dividida em classes, com interesses e projetos de vida diferenciados, e o mundo do trabalho.

Portanto, para abordar a temática central deste texto, é necessário inicialmente sinalizar alguns referentes de caráter conceitual relacionados com classe e movimento social, e, na seqüência, abordar algumas questões importantes no campo do trabalho e da educação com os movimentos sociais que representam desafios permanentes para a práxis da Educação Popular.


1. Resgatando conceitos fundamentais.
È importante, mesmo que de forma sintética, resgatar os conceitos de classe e de movimento social que foram criados pelas ciências sociais e têm significados segundo os paradigmas teórico-explicativos de análise da realidade social.

  1.1. Re-visitando algumas concepções clássicas de classe social ressaltamse as teses fundamentais de Max Weber e Carl Marx.
  • O primeiro elaborou uma abordagem de ação mul- tidimensional fundada em três elementos básicos: poder, riqueza e prestígio. Dentro deste escopo classe social é uma das estruturas da sociedade – a estrutura econômica, ao lado dos grupos de status da ordem social, e dos partidos – a estrutura da ordem política, o poder. Coloca que interesses econômicos no mercado levam à criação da classe.

    Assim, uma classe se define pela posse de meios para construir uma fortuna ou para constituir um capital, conferindo-lhe privilégios. Para Weber as classes são posições comuns dentro do mercado, que organizam ações comuns voltadas para a defesa de seus interesses.

  • O segundo trata sobre classes como estrutura objetiva de posições sociais, que somente podem ser entendidas no universo de suas relações com outras classes, não sendo possível apreendêlas sem tratar da luta de classes. Assim sendo, para Marx, as classes se constituem de acordo com a posição que os indivíduos ocupam no processo de produção e este repousa sobre a exploração de uma classe sobre a outra, ou seja, dos que detêm o capital sobre os que detêm a força de trabalho.

Evidentemente, torna-se necessário colocar que foram produzidas outras teses cujos paradigmas clássicos explicativos assumem viés funcionalista abordando classes como estilos de vida que os indivíduos têm na sociedade de consumo, classificandoos pela renda, educação e ocupação. Uma outra tese conceitua classe social como campo de força onde a sociedade está organizada em círculos concêntricos e cada um corresponde a uma classe social.

Nas concepções contemporâneas marxistas observa- se que o conceito de classe social foi sendo reformulado. A categoria econômica é parte do conceito, mas a abordagem não é exclusivamente econômica. As classes não são dadas a priori, se constituem na história de acordo com suas lutas e ações coletivas. À medida que desenvolvem uma práxis, ou seja, um pensar e um fazer relacionados, as classes criam uma identidade. Deste modo, as classes se formam por meio das relações que os indivíduos, grupos estabelecem, e isso ocorre como um processo ( Oliveira, 1987).

É mister destacar no quadro das teses contemporâneas os denominados pós-marxistas que enfatizam a autonomia da política e da ideologia em relação à economia, retomando o conceito de classe social nesta direção. A luta de classes na sociedade não se reduz às contradições entre burguesia e o proletariado, incorporando uma multiplicidade de atores sociais oriundos de outros estratos da sociedade, organizados em grupos e movimentos sociais. Vêm à classe trabalhadora como um dos agentes possíveis envolvidos com a transformação social, argumentando que a sociedade é capaz de se organizar de infinitas maneiras. Há ainda, os que analisam os efeitos da globalização, no mundo do trabalho, com a tese da exclusão social.

No quadro das abordagens marxistas é importante destacar e apreender as contribuições gramscianas de alta contemporaneidade, uma vez que o seu objeto, o capitalismo e suas formas, não desapareceram, mas, se ampliaram, renovaram e se tornaram mais complexas. Outra razão para apreendê-las é a de que seu pensamento, no interior do marxismo investigativo, associa intensamente conhecimento histórico, Estado, luta cultural, sociedade civil, práxis política, intelectual orgânico, educação, processo de formação e profissionalização. Gramsci dá relevo ao lugar do intelectual na formação ideológica e hegemônica na sociedade, de uma nova moral e cultura, ressaltando a função e importância da educação, da escola, da formação tecnológica, da formação do trabalhador por serem espaços de desenvolvimento da sociedade civil dos movimentos sociais.

Por isso, serão resgatados sinteticamente alguns referentes de sua tese sobre o conceito de intelec- tual orgânico, a função da educação, da escola, e da formação humana. Estes deverão fundamentar, de forma imanente, os tópicos subseqüentes abordados neste texto sobre trabalho e educação com os movimentos sociais, constituindo-se desafi os permanen- tes para o debate da práxis da Educação Popular.


  A tese gramsciana.
Trata-se de uma concepção que está diretamente desenvolvida no seu conceito de hegemonia, compreendido como direção moral e política de uma classe quando toma o poder (ou não) sobre as classes concorrentes e aliadas. Nesta direção Gramsci discute o papel dos intelectuais como os que fazem as relações entre as diferentes classes sociais possibilitando uma visão de mundo mais unitária e homogênea, destacando que todas as camadas sociais possuem seus intelectuais.

Os intelectuais têm uma função orgânica bastante importante no processo de reprodução social, na medida em que ocupam espaços sociais de decisão prática e teórica. Mas, a principal função destes se encontra na formação de uma nova moral e uma nova cultura, que podem ser entendidas também como uma nova – hegemonia (1999).

Todo grupo social que possui função no mundo da produção, empresários, trabalhadores, elaboram os seus intelectuais para darem maior homogeneidade e consciência da importância da função de classe (1989). Ao insistir na compreensão do intelectual vinculado às forças de base histórica, Gramsci considera um erro bastante comum é o de crer que toda camada social elabora sua própria consciência, sua própria cultura da mesma maneira, com os mesmos métodos, isto é, com os métodos dos intelectuais profissionais (1977).

Em sua concepção todos os homens são intelectuais, os intelectuais também são trabalhadores, pois nem o trabalho braçal dispensa o cérebro, nem o trabalho intelectual dispensa o esforço muscular nervoso, a disciplina, os tempos, os movimentos do homem, a pesar de nem todos assumirem na sociedade a função de intelectuais. As atividades sociais são distintas, mas, todos os homens possuem alguma cosmovisão, mesmo de maneira fragmentada, sob a qual baseia o seu comportamento moral e contribui ou não para manter ou mudar uma determinada forma de pensar.

O intelectual orgânico é aquele que nasce, cresce, movimentase dentro das bases: representa as bases e não perde o vínculo de ligação entre ele, o intelectual, e o grupo que representa; compartilha dos problemas enfrentados pela sociedade e o tenta interpretálos, difundindo assim sua ideologia para que esta se torne cada vez mais hegemônica. São “células vivas” dentro da sociedade.

No conjunto de seu pensamento, enfoca a temática dos intelectuais no âmbito da divulgação ideológica na qual a educação e a escola exercem um importante papel. Sua compreensão de educação, formação, profissionalização e escola, como instrumentos privados de hegemonia, estão direcionadas para a construção de uma nova moral e uma nova cultura da classe subalterna na perspectiva da conquista do Estado. Por isso, é necessário romper com a subordinação intelectual e ideológica das classes subalternas, que se tornam aliadas da cultura dominante ao reproduzir sua ideologia (1989).

É senso comum que permite a submissão à ideologia dominante e precisa ser superado pela filosofia da práxis e este trabalho compete aos intelectuais orgânicos que devem ajudar na superação da visão fragmentada para uma visão de totalidade.

Ter uma visão unitária do mundo é elemento imprescindível para se chegar à hegemonia, enquanto exercício de uma classe por meio da direção e consenso (1987).

Gramsci se preocupou com a dicotomização entre educação e ensino geral e o profi ssional cujo significado social e estrutura básica estão fundados somente na preparação de mão – de – obra para o mercado. Criticou a escola profi ssionalizante, por considerála elitista e discriminatória, mas sem deixar de considerar a necessidade de modernização técnica da sociedade. Fixou atenção na proposta de escola única, de cultura e formação que englobava as dimensões fragmentadas da escola: formação geral e técnica. Abriu a discussão relativa à função da escola unitária quanto à introdução do cidadão na vida estatal e da sociedade civil, para conhecer as leis naturais e sociais. Estes conhecimentos deveriam dirimir as visões individualistas e localistas de mundo, que impedem o homem na superação do senso comum. No domínio dessas leis se efetivaria o princípio educativo sobre o qual estava fundada a educação e a escola: o conceito de trabalho (2000). Enfatizou a necessidade de diferenciar os modos e os instrumentos de difusão da cultura no trabalho educativo – formativo que não pode se limitar à simples enunciação teórica de princípios claros e de métodos, mas deve ser um trabalho que articule a indução, a dedução, a lógica formal e a dialética. Ressaltou que o ponto de partida para alcançarse uma visão mais unitária é sempre o senso comum, mas a forma de concretizar uma cultura é libertando os homens do senso comum e sua fi losofi a espontânea (1978). O processo hegemônico vincula o ato pedagógico ao político. A formação política, entendida como capacidade de intervenção prática na realidade, é um constante desafio para os edu- cadores. O que distingue a verdadeira educação é o fato de ela ser elemento de intervenção política, diz Paulo Freire, cujo pensamento foi infl uenciado por Gramsci.

De acordo com a tese gramsciana aos intelectuais orgânicos cabem as seguintes tarefas para a concretização de uma nova hegemonia: não se cansar de repetir os mesmos argumentos e variar a sua forma; trabalhar para elevar intelectualmente as camadas populares, o que significa trabalhar na criação de intelectuais que surjam da massa e que permaneçam em contato com ela para tornaremse seus sustentáculos.

O pensamento de Gramsci é muito amplo e pode ser abordado sob diversos aspectos. Cada conceito explicitado neste texto merece maior atenção, estudo, por parte dos educadores, intelectuais orgânicos envolvidos com a práxis da Educação Popular com os movimentos sociais.


  1.2. Conceito de movimentos sociais.
No que se refere ao conceito de movimentos sociais fazse necessário estabelecer um recorte analítico partindo da literatura corrente porque o termo ainda é permeado de imprecisões e ambigüidades, tanto que os partidos políticos podem estar dentro desta categoria de acordo com alguns analistas.

Malgrado existir a séculos, os movimentos sociais passam a ser analisados com profundidade mais recentemente pelos cientistas sociais, tanto assim que no início de século XX o conceito compreendia quase exclusivamente a organização do proletariado industrial, isto é, o sindicato.

Um conjunto de elementos constituiesse conceito de acordo com diversos autores estudiosos desse fenômeno como, por exemplo, Alan Touraine, Manuel Castells, Sideney Tarrow, e no Brasil, Safi ra Bezerra Ammann, Maria da Glória Gohn, Ilse Scherer Warren, Luiz Eduardo Wanderley. Evidentemente há diferenciações, especificidades e particularidades nas abordagens destes autores. Porém, há referentes comuns nas formulações do conceito de movimentos sociais quando eles sinalizam em diferentes estudos que: a ação dos grupos humanos se dá na história, envolve um fazer de práticas sociais e um pensar sobre estas, oriundo de um conjunto de idéias que motivam à ação possibilitando, portanto, uma práxis social.

Dentro desse escopo, pode-se apreender que movimentos sociais referem-se às ações coletivas de caráter sociopolítico, desenvolvidas por diversos atores sociais pertencentes a diferentes classes sociais. Touraine coloca que o movimento social é um mo- vimento de classe que exprime o conflito existente entre classes, definindo o contra-movimento ao qual se opõe para conservar ou apropriar-se do controle da historicidade, ou seja, do sistema de ação histórica (1973). Neste sentido, a análise e compreensão sobre movimentos sociais e sua ação não se separa da análise de classe social, sem, no entanto, resumilos às determinações geradas somente pelas classes. Castells conceitua movimento social como sistema de práticas sociais contraditórias, que controvertem a ordem estabelecida a partir das contradições específicas da problemática urbana. Sustenta que os movimentos urbanos se transformam em movimentos sociais na medida em que logram converter-se em componentes de um movimento político que controverte a ordem social (1976).

Observase que relações de classe e movimentos sociais são indissociáveis, e, como movimento de classe, o movimento social é composto pela combinação de elementos inseparáveis: princípio de identidade, de oposição e princípio de totalidade, que se inscrevem no coração das relações sociais.

O princípio de identidade é o modo de defi nição do ator por si próprio. Um movimento social manifesta a identidade dos atores na medida em que exprime os aspectos dialéticos da classe. É a prática das relações sociais que situa e define o ator.

Portanto, a identidade do ator não pode ser defi nida independentemente do conflito real com o adversário, e do reconhecimento objetivo da luta. A consciência da identidade faz parte da definição de uma classe, pois as classes só podem ser defi nidas em termos de relações sociais, portanto, das orientações de cada um dos adversários sociais. É o conflito que constitui e organiza o ator e este vai politizando suas demandas e criando um campo político de força social na sociedade. As ações vão sendo estruturadas sobre temáticas e problemas nas situações de confl ito, disputas e oposições, gerando um processo social e político-cultural que contribui para criar a identidade coletiva do movimento, a partir de interesses comuns. Esta identidade também decorre da força do princípio da solidariedade, do compromisso existente bem como da base referencial de valores culturais e políticos compartilhados pelo movimento.

Um movimento manifesta também a oposição de classe e se organiza para poder identificar seu adversário que, inclusive, pode ser o Estado e muitas vezes o é. Porém, sua ação não pressupõe esta identificação, é o conflito que faz surgir o adversário. Portanto, o princípio de oposição existe quando o ator se sente confrontado com uma força social num embate que coloca em causa orientações da vida social.

O movimento social manifesta ainda totalidade, isto é, não se esgota no conflito, mas se lança ao cerne do conflito que é a apropriação e o controle da historicidade. O princípio da totalidade é o próprio sistema de ação histórica, cuja dominação é disputada pelas classes sociais opostas dialeticamente (1976).

Os movimentos aglutinam bases demandantes e criam alianças sociopolíticas articulandose, muitas vezes em redes sociais de interesses comuns. O caráter assumido pelos movimentos advém do tipo de ação que desenvolvem. Assim, podem assumir um caráter mais reformista, ou transformador, ou alternativo.

Safira Ammann toma como premissa analítica que o elemento constitutivo do movimento social é a contestação e todo movimento carrega o germe da insatisfação no seio das relações sociais, que redundam em situações indesejáveis para um grupo ou para a sociedade, sejam elas presentes ou futuras. Portanto, movimento social é uma ação coletiva de caráter contestador, no âmbito das relações sociais, objetivando a transformação ou a preservação da ordem estabelecida na sociedade (1991).

De acordo com os referentes gramscianos e o aporte de Ammann, é importante e necessário para a Educação Popular que desenvolve ações educativas com os movimentos, e estes constituir a força produtiva e reprodutiva da sociedade, abordálos sobre trabalho e educação através de seus educadores e intelectuais orgânicos. Tratase, evidentemente, de um campo temático dos mais polêmicos e complexos, mas, que precisa ser analisado e debatido sistemática e metodologicamente nas iniciativas de Educação Popular.


2. Desafios para a práxis da educação popular.
Algumas questões oriundas das realidades dos movimentos sociais, relacionadas ao trabalho e a educação devem ser atualizadas e desenvolvidas pela Educação Popular através de seus educadores e intelectuais orgânicos. Dentre elas destacam-se: trabalho decente; trabalho e qualificação; trabalho e elevação de escolaridade.

  Trabalho decente.
Urge que sejam criadas políticas de trabalho decente apoiadas em quatro grandes pilares: criação de emprego assalariado e por conta própria; proteção so- cial; respeito aos princípios e direitos fundamentais no trabalho; realização do diálogo social.

Uma questão que se coloca diz respeito à promoção de oportunidades para que as pessoas possam obter Trabalho Decente e produtivo, em condições de liberdade, igualdade, segurança e dignidade huma na. Tornase necessário que as sociedades gerem trabalho. É indubitável que se devem incrementar novos postos de trabalho; erradicar o trabalho infantil; combater o tráfico e exploração de crianças e adolescentes; incrementar o primeiro emprego; promover a defesa dos direitos dos trabalhadores com deficiências; realizar a formação sistemática dos trabalhadores e certificar as competências profissionais orientadas ao desenvolvimento e as transformações das sociedades, dentre outras questões.

No que concerne à criação de emprego, é importante ressaltar que o aumento da economia informal tem se traduzido, em geral, no aumento do subemprego com rebatimento na queda da produtividade e de remuneração que, por sua vez, geram aumento de trabalhadores (as) pobres. Em relação à proteção social somente uma minoria da população mundial tem alguma proteção social como previdência, seguro social, segurança sócio-econômica, condições de trabalho, saúde ocupacional, embora às necessidades de cobertura venham aumentando. Nos últimos dez anos, o número de pessoas no mundo que sobrevive com um dólar por dia cresceu significativamente. Em diversas sociedades, menos de 30% dos trabalhadores ocupados no setor formal e informal tem cobertura de seguro de acidente de trabalho. Este quadro, combinado com a insuficiência de empregos e o crescente subemprego tornou-se uma grave realidade social que deve ser transformada.

Quanto aos princípios e direitos fundamentais, os trabalhadores devem conhecer e debater a declaração adotada em 1998 pela Organização Inter- nacional do Trabalho – OIT – que reafirma universalmente o compromisso dos Estados membros e da Comunidade Internacional pelo respeito e concretização dos princípios e direitos no trabalho, e outros instrumentos desta natureza. É imprescindível o debate e a crítica permanente sobre organização dos trabalhadores, liberdade sindical, negociação coletiva e outras estratégias de luta, como espaços de busca de hegemonia, bem como sobre o combate ao trabalho infantil forçado e as diferentes formas de discriminação.

No que se refere ao diálogo social este deve se tornar uma ferramenta para a ação e se refletir nas atividades produtivas e reprodutivas, na busca do consenso sobre problemas e desafios, através da prática – política. Tratase da busca da unidade na diversidade como um pacto de diferentes que preserve a expressão do pensamento. A edifi cação do pensamento coletivo é a busca do consenso, em permanente re-processamento, em torno das questões centrais para a realização da luta social e política. Essa ferramenta é fundamental para evidência das contradições no mundo do trabalho e dos limites e possibilidades de avanços das transformações, da busca da hegemonia, conforme Gramsci.


  Trabalho e qualificação profissional.
A crise do modelo taylorista – fordista e a introdução de novas tecnologias trouxeram mudanças nas relações de trabalho no sentido de sua flexibilização demandando significados e objetivos específicos para a qualificação.

Neste quadro emanou a noção de competência para atender às demandas da produção flexível objetivando que o trabalhador se tornasse em colaborador criativo e comprometido com a empresa no seu desafio de enfrentar a crescente competitividade do mercado. Neste sentido, além da qualificação contribuir para desenvolver no trabalhador a capacidade de responder pelo posto de trabalho, teve também que estimular sua motivação individual e subjetiva. A qualificação tornouse mais ampla e continuada ante as exigências de um mercado mais competitivo, restrito e mutável que demandava e continua deman- dando, do trabalhador, saber, fazer, agir, aprender e ser pró – ativo.

O termo qualificação vem se ampliando em seus usos e implicações e suas práticas são construídas socialmente relacionadas ao mundo do trabalho. Envolve um conjunto de conceitos de ordem jurídica, política – social, contratual, defi nições sobre o próprio processo de trabalho e suas modalidades – produtiva e reprodutiva – os trabalhadores e as relações sociais.

Em decorrência das transformações pelas quais vêm passando o mundo do trabalho, teorias e práticas neste campo continuam envolvendo as noções de flexibilização, mercado, competência, terceirização, desregulamentação, entre outras. Porém, os debates que estão sendo feitos nesta área, por educadores na perspectiva da transformação social, apontam uma abordagem da qualificação concebendo-a como relação social na ótica da dialética da “escola – do trabalho”. Uma abordagem que incide sobre a análise das contradições sociais, dos limites e pos- sibilidades de desenvolvimento das capacidades dos trabalhadores e movimentos sociais objetivando a transformação no trabalho.

Todavia, as práticas são reveladoras do quanto é preciso avançar em torno dessa abordagem. O que se observa nas ações de qualificação é a prevalência da orientação metodológica nas seguintes direções: da instrumentalização básica, ou seja, da socialização apenas de conteúdos técnicos específicos através de cursos tendo em vista a aquisição de competência, voltada para as novas necessidades do setor produtivo; ou da possibilidade de obtenção de renda ou de lucro gerada com a crise do emprego e expansão da economia informal; ou da expectativa das possibilidades de execução das políticas públicas como resposta também ao desemprego. Acrescente-se ainda uma implicação importante no que se refere à execução dessas vias: a ação desarticulada, fragmentada e até concorrencial dos diversos atores sociais, na forma de entes públicos e privados ou híbridos, encarregados das ações de qualifi cação. A necessidade de qualifi cação profissional e de geração de emprego e renda vem se tornando uma unanimidade frente ao desemprego estrutural, ao avanço tecnológico. Mas, é importante se perguntar: qual o tipo de qualificação profissional e como pode se constituir instrumento para construção de uma nova hegemonia?

As experiências de qualificação com os trabalhadores, movimentos sociais, em muitos casos, revelam problemas de relação entre a aprendizagem teórica desenvolvida e a aplicação dos conhecimentos adquiridos e acumulados no cotidiano do trabalho, da ação. Este fato, que contém várias causas, demonstra que é fundamental à adoção e desenvolvimento de instrumentos de mediações que torne a qualificação dos trabalhadores processual, integral e estimuladora de transformações de suas realidades, de acordo com os princípios da escola única pensada por Gramsci.

É preciso afastar a noção de qualificação como simples reprodução de conhecimento técnico e adotar o princípio da educação “onilateral”, que possibilita o desenvolvimento do homem integral, orienta a superação da dicotomia entre trabalho produtor de mercadoria.

E o trabalho intelectual. Este princípio pode ser entendido em todas suas implicações: essa qualificação não é apenas a preparação do trabalhador para diferentes atividades produtivas; uma espécie de qualificação industrial diversificada ou de desenvolvimento de habilidades gerais para o trabalho que visa apenas obtenção de alternativas de emprego.

É uma educação integral que envolve ainda: a possibilidade de uma plena e total manifestação de si mesmo independentemente das ocupações específicas do trabalhador; integração entre teoria e prática em um único processo, trabalho manual e intelectual; eliminação da formação, qualificação parcelada; recusa das dicotomias tradicionais da concepção burguesa de mundo e a possibilidade completa de realização de cada pessoa como ser histórico; rejeição da associação de diversas formações por justaposição; e ainda a eliminação da descriminação da classe e o enfrentamento da oposição entre cidade e campo, dentre outros aspectos.

Trata-se de uma educação cujo objetivo é contribuir, ao lado de outras ações políticas, na construção de uma sociedade de pessoas livres e iguais, de uma nova hegemonia. Tornase clara a distinção entre a mera profissionalização, ou mesmo a politecnia (1989) e a educação “onilateral” ou a escola única pensada por Gramsci que enfatiza: o trabalho como meio de acesso ao conhecimento, e, por conseguinte, do desaparecimento da subordinação que escraviza as pessoas à divisão do trabalho; o desenvolvimento dos trabalhadores em todas as suas dimensões; o crescimento das forças produtivas e usufruto das riquezas coletivas; a conquista de que o trabalho não seja somente um meio de vida, mas uma necessidade vital, um instrumento de mediação para a transformação do mundo. Tratase de uma educação que fomenta a cultura do trabalho como teia de valores, princípios e normas construídos e consensuados pelos trabalhadores e outros sujeitos populares no interior de seus trabalhos, movimentos e organizações.

O processo de desenvolvimento dessa educação exige coordenação qualificada dos intelectuais dos trabalhadores dos movimentos, que possam planejar e elaborar estratégias adequadas para sua viabilização.


  Trabalho e elevação de escolaridade.
É fundamental se estabelecer o diálogo entre trabalho e educação, e, mais especificamente, entre trabalho e elevação da escolaridade. Porém, é indispensável se perguntar: de que lugar propõe-se o diálogo? Do lugar que emanam as necessidades dos trabalhadores: do cotidiano de desemprego ou de subemprego, das exigências dos postos de trabalho, das experiências dos cursos de qualificação profissional, das formas de geração de renda, dos conflitos diversos existentes no mundo do trabalho e da educação. Desses lugares deve-se questionar se não é urgente o diálogo entre trabalho e alternativas de elevação de escolaridade dos trabalhadores (as) organizados em movimentos sociais ou não.

Os vínculos entre trabalho e educação têm sido pesquisados e debatidos e repensados, nestas últimas décadas, ante as transformações no mundo do trabalho, às novas tecnologias, às formas de organização e racionalização da produção e aos custos sociais que essas transformações acarretam aos trabalhadores. Assim sendo, se coloca a premência da análise e ação no que se refere à elevação da escolaridade de grande parte dos trabalhadores, principalmente os mais pobres, ante as exigências postas pelo mundo do trabalho e, sobretudo, pela necessidade de desenvolvimento dos próprios trabalhadores e da sociedade como um todo.

O problema que se apresenta exige que sejam criadas políticas e estratégias de enfrentamento, por parte dos Estados nacionais e outros organismos, que contemplem mais investimentos quantitativos e qualitativos no atendimento pelos sistemas educacionais. Observa-se que um número de trabalhadores jovens e adultos, desempregados ou subempregados, apresenta baixos níveis de escolaridade ou escolaridades incompletas e este fenômeno difi culta a inserção nas atividades produtivas e reprodutivas. Estes trabalhadores são duplamente expropriados socialmente, ao mesmo tempo, e muitos não têm nenhuma qualifi cação profissional para o trabalho. Quando os mesmos conseguem realizar cursos de qualifi cação profissional, em geral apresentam grandes dificuldades de desempenho de aprendizagens, no campo formal, por falta de fundamentos básicos para compreensão dos conteúdos profi ssionalizantes e análise das realidades sociais. Em Gramsci é ressaltada a importância das classes subalternas terem acesso à formação geral ampla, a cultura histórica e ao conhecimento científico e tecnológico acumulados socialmente.

No momento de instrução também ocorre lacunas na relação entre o processo de profissionalização e o de elevação da escolaridade, necessitando da criação de mecanismos para tal fim. Um outro aspecto ganha relevo dentro desse panorama: as alternativas de programas de educação de jovens e adultos, em geral, não apresentam condições de atendimento aos trabalhadores a qualquer momento que precisem e possam participar desses programas de modo que, por exemplo, concomitantemente à profi ssionalização possam também desenvolver a escolaridade adequada. Acrescente-se a esta necessidade outras concernentes à propriedade da teoria pedagógica, do currículo, do método de ensino – aprendizagem ligada aos interesses, motivações, realidades, capacidades e aproveitamento dos tempos históricos dos trabalhadores jovens e adultos que integram os movimentos sociais. Neste sentido, é importante e necessário recorrer aos fundamentos da filosofi a da práxis.

A problemática da elevação da escolaridade se constitui um dos campos comuns para intervenção social, no qual devem se encontrar os movimentos sociais, outros intelectuais orgânicos e gestores estatais comprometidos com as transformações.


3. Considerações finais.
O fio condutor deste texto consiste em levantar algumas questões em torno da temática do trabalho, sobretudo, como princípio educativo que deve ser focado permanentemente pela Educação Popular em sua práxis com os movimentos sociais, considerando-os “células vivas” das sociedades e sujeitos da ação coletiva de caráter contestador e propositivo, no âmbito das relações sociais, objetivando as transformações das sociedades.

Por abordar o conceito de trabalho na perspectiva gramsciana ressalta-se que a função do trabalho – educação é servir para educar os trabalhadores (as), movimentos sociais a dominar e humanizar a natureza e a sociedade, em colaboração com os demais. “Se historicamente, o trabalho, de manifestação de si tornouse perdição de si, o processo educativo precisa inverter esse movimento, recuperando o sentido e o fato do trabalho como libertação do ser humano”.

Compete a “escola – do – trabalho” educar o ser humano para realização do processo completo do trabalho: se comunicar, produzir e usufruir da produção. Estes elementos são pilares no desenvolvimento da cultura do trabalho.

È um desafio permanente para Educação Popular desenvolver sua práxis, com os movimentos sociais, contribuindo para que interajam com outros movimentos e atores diversos dentro das sociedades bem como com a natureza. A Educação Popular por seus pressupostos e princípios não pode se omitir de orientáos nesse rumo e nessa obviedade.

Um outro desafio constante para a Educação Popular é a formação dos movimentos sociais para a fruição adequada e igualitária dos bens produzidos na sociedade, porque se não usufruírem o que produziram o ciclo de interação entre os seres humanos – natureza – sociedade permanecerá truncado. Sem fruição a produção humana se frustra. É necessário orientar os intelectuais orgânicos, os movimentos sociais, para o exercício da interação com a natureza e a sociedade. As atividades formativas e de qualifcação profissional devem ter rigor formal, científico, tecnológico; estimular o exercício da liberdade para que venha ocorrer à passagem da necessidade para a liberdade como um processo de fusão, fruto das lutas de cada dia; e provocar o desenvolvimento de talentos individuais e coletivos.

Essa concepção de trabalho – educação que funde rigor científico com liberdade responsável relacionae com a idéia de educação plena, integral, “onilateral”. O conceito de “escola – do – trabalho” neste sentido é rico e amplo, para além do trabalho para produzir mercadoria, associa-se a política de distribuição de riqueza para além dos salários relacionados aos empregos do modelo industrial. Evidencia-se aqui o conceito de trabalho como princípio educativo.

Por último, constitui-se também desafio para a Educação Popular: desenvolver sua práxis utilizando sistematicamente a dialética pedagógica; atualizar sempre o conceito de transformação social que tem sua base no crescimento cultural, na formação da consciência, na formação intelectual e moral dos movimentos e seus intelectuais não dissociando o citado conceito do de classe social; desenvolver conceitual e estrategicamente o tema da cultura do trabalho e processos educativos, estimulando o debate nos espaços formais e não formais de educação. Assim sendo, é fundamental buscar os referentes de Gramsci para alicerçar a ação educativa – formativa e de qualificação profissional com os movimentos sociais enquanto espaços de formação intelectual e moral que podem contribuir para construção de uma nova moral e cultura, de uma nova hegemonia, da transformação social.

Neste sentido, reside o significado, existência e atualidade da Educação Popular a serviço dos movimentos sociais.


Referências.
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